A cantora niteroiense MC Carol lançou na sexta-feira (3) uma música que
tem chamado a atenção pela letra. Em vez de sexo, ostentação ou
apologia à violência, temas recorrentes em funks, “Não foi Cabral”
desafia a história do Brasil contada na maior parte dos livros
escolares. A reportagem conversou com a funkeira e entrevistou
professores para analisarem os versos que falam do descobrimento do
país, do genocídio de indígenas e cobra destaque para Dandara, a mulher
de Zumbi de Palmares.
Para assistir a música no CELULAR acesse aqui
A música, que começa com um remix do Hino Nacional, contesta o
descobrimento, em tom de voz agressivo. “Nada contra ti / Não me leve a
mal / Quem descobriu o Brasil / Não foi Cabral / Pedro Álvares Cabral /
Chegou 22 de abril / Depois colonizou / Chamando de Pau-Brasil / Ninguém
trouxe família / Muito menos filho / Porque já sabia / Que ia matar
vários índios” (veja a letra completa abaixo e ouça a música AQUI).
A cantora compôs a canção a partir de um convite do projeto Temas de Dança,
que estuda a relação entre corpo, dança e história. “Nessa entrevista
[ao projeto] eu comecei a falar sobre a minha adolescência na escola e
falei que debatia muito com as professoras. Contei que a professora de
história era com a qual eu mais debatia. Ela falava coisas que eu não
aceitava e me colocava para fora da sala (...) Ela dizia que Pedro
Álvares Cabral descobriu o Brasil. E eu falava: professora, Pedro
Álvares Cabral não descobriu o Brasil porque já tinha 4 milhões de
índios aqui. Como ele descobriu?”
O professor Oswaldo Munteal, da PUC-Rio, acredita que a perspectiva
crítica da história apresentada em “Não foi Cabral” é válida e afirma
que o funk merece ser respeitado como arte desenvolvida no Brasil. Ele
afirma que a linguagem do ritmo é própria e que possíveis erros de
linguagem são relativos.
“É um gênero contra o qual ainda há muito preconceito. E eu acho que
este preconceito ainda precisa ser combatido. É música, e dentro deste
âmbito, o certo e o errado são relativizados porque dependem da rima, da
harmonia, do contraponto, da melodia e da própria composição da
música”.
Visão 'válida', dizem professores
Para Munteal, a música pode atrair o interesse das pessoas para que
partam para um estudo mais aprofundado da disciplina. Ele acredita que
os brasileiros conhecem muito mal a sua própria trajetória.
“Acho que pode despertar um interesse crítico pela história. Porque as
pessoas acham que já sabem história e que elas não precisam estudar. No
vestibular, é a segunda pior nota, após física. Então é interessante
despertar o interesse pelo raciocínio histórico. E é legal que o funk
fale de história do jeito dele, agressivamente, com um jeito de cantar
diferente. Eu acho que é uma maneira de expressão respeitável.”
Para o professor Flávio Morgado, do Colégio e Vestibular de A a Z, a
visão da história a partir de grupos considerados marginais foi feita
justamente a partir de um tipo de música que também é marginalizada.
“Ela está se comunicando com o seu público, que muitas vezes também é
marginalizado. A música tem uma certa ironia e humor, característicos do
gênero. E mesmo com humor, ela tem uma coerência.”
José Nazareth Neto Alvernaz, professor do Colégio Sarah Dawsey, acha
que MC Carol tem uma visão válida sobre o tema. “A letra é interessante
porque alguns livros ainda insistem em reproduzir a chegada de Cabral e
não problematizam a chegada dos colonizadores. A maioria dos professores
afirma que é um equívoco. Há alguns livros que, inclusive, já trabalham
com a perspectiva de chegada e não de descobrimento. Quando eles
chegaram aqui havia de 4 a 6 milhões de indígenas. É uma visão
eurocêntrica. Estamos acostumados a trabalhar a visão dos vencedores. A
visão dos vencidos ainda está sendo difundida.”
Alvernaz cita como exemplo a viagem de Duarte Pacheco Pereira, que
teria chegado ao litoral do Nordeste em 1498, mas não é citado nos
livros didáticos. “Nós aprendemos a versão dos vencedores, mas os
vencidos estão começando a ser ouvidos”, opina.
Morro do Preventório
A música também aborda as mortes de índios e de negros na construção do
país. “Falando de sofrimento/ Dos tupis e guaranis / Lembrei o
guerreiro/ Quilombo Zumbi”. Carol também questiona a versão oficial para
a abolição da escravatura.
“A professora batia muito na tecla da história da Princesa Isabel,
porque tem uma casa enorme no pé do Morro do Preventório, onde moro, que
é a Casa da Princesa, que era a casa de bonecas, o lugar onde ela
brincava. E o Morro do Preventório era um cemitério, onde enterravam os
escravos. Aí eu comecei a debater com ela a figura da Princesa Isabel.
Porque na época que ela assinou a Lei Áurea, aquilo já tinha que
acontecer. Porque os ingleses já pressionavam pela libertação dos
escravos, para eles terem dinheiro e comprar coisas. Então é como se
pegassem uma branca, para fazer de conta que ela foi a libertadora dos
negros. Mas não foi exatamente isso que aconteceu”, questiona a MC.
Para o professor Flávio Morgado, destaca-se na letra a menção ao nome
de Dandara dos Palmares, mulher de Zumbi, que no século 17 lutou na
resistência contra as forças dos colonizadores nos ataques contra o
quilombo, que ficava na região onde atualmente é o estado de Alagoas. A
guerreira, sobre a qual existem escassos registros, é um ícone dos
movimentos negro e feminista.
“MC Carol não obedece a nenhum padrão estabelecido, ela é negra e vem
de uma comunidade carente. Eu acho importante a menção porque traz
aspectos importantes, como a figura da Dandara. Ela traz à tona
importância dessa figura histórica. Ela revisita a história de um ponto
de vista periférico”, diz Morgado.
José Nazareth explica o papel de Dandara na história do Quilombo dos
Palmares, mas afirma que a importância da Princesa Isabel não pode ser
deixada de lado na história do Brasil. “A Dandara teve uma participação
importante na vida do Zumbi e na qual eles se revoltaram contra o
primeiro líder do quilombo dos Palmares, o Ganga Zumba, porque ele fez
um acordo com os holandeses com o qual não concordaram”.
Ele lembra que Zumbi e Dandara têm inegável importância na história da
resistência negra do país, mas cita trabalhos do historiador José Murilo
de Carvalho que informam que havia também escravidão em Palmares.
"Palmares não era feito somente de negros. Também existiam índios e
pessoas brancas empobrecidas que se refugiavam em para se livrar da
exploração da aristocracia rural."
Funk culto
Oswaldo Munteal afirma que a música que fala da história do Brasil pode
ajudar a amenizar o preconceito contra o gênero. “O funk é uma
manifestação do nosso povo. Pode ter vindo dos Estados Unidos, mas
ganhou vida aqui e muita coisa também veio de lá, como o rock, que é
amplamente aceito.”
Alvernaz concorda e ratifica a posição do funk como um gênero musical
que pode abrir os olhos de novos estudantes para os encantos do estudo
de história.
“A letra é simples e tem uma linguagem bem comum de ser entendida e que
pode atingir que, muitas vezes, não se interessa por uma leitura mais
acadêmica. A música pode ser um instrumento de aprendizagem para boa
parte da sociedade.”
MC Carol comemora a boa repercussão da música na internet e afirma que
foi capaz de mostrar uma nova face ao público. “Se antes as pessoas
achavam que a MC Carol não poderia compor um funk culto, eu acho que
elas já têm outra visão.”
Confira a letra da música e ouça AQUIi:
Professora me desculpeMas agora vou falar
Esse ano na escola
As coisas vão mudar
Nada contra ti
Não me leve a mal
Quem descobriu o Brasil
Não foi Cabral
Pedro Álvares Cabral
Chegou 22 de abril
Depois colonizou
Chamando de Pau-Brasil
Ninguém trouxe família
Muito menos filho
Porque já sabia
Que ia matar vários índios
13 Caravelas
Trouxe muita morte
Um milhão de índio
Morreu de tuberculose
Falando de sofrimento
Dos tupis e guaranis
Lembrei do guerreiro
Quilombo Zumbi
Zumbi dos Palmares
Vitima de uma emboscada
Se não fosse a Dandara
Eu levava chicotada

Nenhum comentário:
Postar um comentário